ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO (Before The Devil Knows You’re Dead, 2007)

[Por Bianca Zasso]

Três homens em conflito

Poucos são os diretores que sabem conduzir uma trama sobre conflitos essencialmente masculinos. Em tempos onde as mulheres buscam como nunca uma visibilidade em frente e atrás das câmeras e alguns ainda insistem na questão do “olhar feminino”, pouco se fala sobre artistas que se dedicam a tirar a máscara do macho inabalável na hora de construírem suas histórias. Sidney Lumet, sem dúvida, merece encabeçar esta lista pequena mas necessária. Já na sua estreia na condução de longas-metragens, 12 HOMENS E UMA SENTENÇA, ele deixava claro que nenhum daqueles jurados estava querendo colocar um garoto atrás das grades à toa. Muita mágoas e segredos estavam em jogo e coube ao sempre brilhante Henry Fonda a tarefa de provocar para que cada um pudesse se revelar. Cinquenta anos depois, ele lapida o tema que parecia já ser sua pedra preciosa.

ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO já nasceu um clássico, a começar pela trama. Os irmãos Andy (Philip Seymour Hoffman) e Hank (Ethan Hawke) estão com sérios problemas financeiros. A solução proposta por Andy para quitar as dívidas de ambos é assaltar a joalheria fundada por seu pai, Charles (Albert Finney). Sem alarde, sem tiros e sem prejuízos para os pais da dupla. Só que tudo dá errado e não há necessariamente um culpado por isso. Andy e Hank acabam sem um tostão e com a mãe morta.

A opção por apresentar o plano, a execução do assalto à joalheria da família e suas consequências sob os pontos de vista dos três protagonistas
não é charme cênico. Lumet sabe que a forma é importante, mas seu interesse real é entregar ao público um pouco da alma de Andy, Hank e Charles. Para ser mais exata, o lado mais sombrio da alma do trio. Para isso, era preciso apresentar seus cotidianos de forma bastante precisa. Por saber que isto toma tempo de filme, Lumet opta por ir aos pedaços, convidando o espectador para montar o quebra-cabeça. É um jogo divertido, mas o verdadeiro sabor de ANTES QUE O DIABO… é a revelação da crise familiar pela qual três homens tão próximos e tão diferentes passam. E para isso é preciso um domínio do melodrama dentro de uma história que nasceu como filme de ação. E Lumet é mestre nisso desde os tempos em que dirigia séries de TV.

Andy é o prazer. Seu problema financeiro é acarretado pelas dívidas com traficantes e gastos luxuosos com a mulher, Gina, interpretada por Marisa Tomei. Ela, aliás, parece ser o único ponto equilibrado do filme. Mesmo incomodada com as atitudes do marido, Gina é quem faz Andy sorrir, assim como Hank, com quem ela tem um caso. Homens confusos caem sempre em colo femininos que não recebem em troca a mesma atenção. Lumet deixa isso claro e faz das breves aparições de Gina uma série de queixas sobre os homens que a cercam e da dependência emocional e financeira que ela tem com eles. Na cena de abertura, onde Andy e Gina transam, temos o último suspiro de alegria do longa. Gozar antes de começar a sofrer. É isso que Lumet nos oferece.

Hank é a carência. A filha faz gato e sapato dele e conta com a ajuda da mãe para tirar até o último centavo do pai. Ele, que não tem boca para nada, faz de tudo para agradá-la, inclusive mentir sobre seus talentos. É a carência que faz ele dizer sim para a proposta de Andy. Quer aquietar os ânimos da filha e da ex-mulher e para isso precisa de dinheiro. Com medo de não conseguir executar o roubo, paga um ladrão para fazer o que ele deveria fazer. Resultado: alarde, tiros e morte.

Da junção da ideia de Andy com a de Hank, surge a fúria de Charles. A morte da esposa desperta nele o desejo de vingança e o que era um senhor boa praça com dificuldade de visão torna-se um homem que não está nem aí para seus atos, desde que possa colocar um fim a quem lhe roubou a companhia da mulher. Na época de seu lançamento, muitos foram os comentários sobre a atuação de Hoffman, do qual não se pode ignorar o talento. Mas Finney está um ponto acima, soando até um pouco exagerado em alguns momentos, se formos comparar sua performance com a do resto do elenco. E por conta da intensidade extra de Charles que Andy perde seu eixo pela primeira vez na história. Um tapa na cara e o bem-resolvido da família cai em prantos e implora por respostas para a falta de afeto do pai. Um choro observado por Gina, que segue sem entender quem é o homem com quem casou. Será que ele próprio sabe?

Lumet tinha 84 anos quando dirigiu ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO e imprimiu na película uma jovialidade de dar inveja a iniciantes na Sétima Arte. Talvez seja a descoberta de que a masculinidade sofre seus abalos que fez com que o diretor tivesse a leveza de falar da complexa relação familiar de três homens de forma tão segura e, nem por isso, menos poética. Ao final do filme, estamos diante de seres humanos que tomaram decisões de moral duvidosa para alguns, mas que pareciam as melhores naquele minuto. Uma curiosidade que só aumenta a admiração pelo filme é que, no roteiro original, escrito pelo dramaturgo Kelly Masterson, Andy e Hank não eram irmãos. Quem deu a sugestão de parentesco foi o próprio Lumet. Um detalhe que modifica toda a obra, dá novo significado às cenas. Sem dúvida, na hora de filmar isso fez toda a diferença. E nós, após os créditos finais, não somos mais os mesmos. Nos resta absorver todas as múltiplas camadas do filme antes que o cinema nos apronte mais uma peça.

Hawke, Hoffman e Lumet nos bastidores do filme.

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