O HOMEM QUE LUTA SÓ (Ride Lonesome, 1959)

[Por Ronald Perrone]

A parceria que o diretor Budd Boetticher e o ator Randolph Scott selaram em meados dos anos 50 resultou em sete belíssimos westerns os quais, às duras penas, tentamos abordá-los aqui no Blog Vá e Veja. Aos poucos, vamos tocando o barco… Até agora já temos resenhas de SETE HOMENS SEM DESTINO (1956), O RESGATE DO BANDOLEIRO (1957) e ENTARDECER SANGRENTO (1957), que vão dar mais detalhes da parceria e do ciclo de filmes chamado “Ranown“.

Agora, falo um pouco de O HOMEM QUE LUTA SÓ, o penúltimo filme desta parceria e o meu favorito, quando a série atinge o seu nível mais alto, especialmente na construção visual. Mas também pela maneira que a história se desenvolve, a partir de um plot básico até chegar num reflexivo e complexo desfecho. Sem falar do elenco, que já torna o filme obrigatório: Scott, obviamente; James Coburn fazendo sua estreia no cinema; James Best; Pernell Roberts, mais conhecido como Ben Cartwright no seriado BONANZA; e a cereja do bolo… Lee Van Cleef, como o vilão fodão.

Scott vive um caçador de recompensas chamado Ben Brigade, que transporta um bandido procurado, Billy John (James Best), até Santa Cruz para ser julgado por assassinato. A sequência que abre o filme, quando Scott captura o bandido de surpresa, é um primor! Uma sucessão de planos e enquadramentos, com os créditos iniciais ainda apontando na tela, que remonta toda uma mística icônica do faroeste americano e reduz as imagens aos seus elementos mais essenciais: os horizontes, o terreno físico, a paisagem rochosa do deserto em composições que, pela primeira vez nessa série de filmes “Scott/Boetticher”, nos é apresentada num belíssimo CinemaScope.

E é esse cuidado com a beleza cênica, essa busca por mostrar apenas o essencial, que acaba por ser o tour de force de O HOMEM QUE LUTA SÓ, já que a trama mesmo segue o básico dos westerns do período. Os dois sujeitos, bandido e herói, acabam se juntando a outros três personagens no meio dessa jornada – dois fora-da-lei, Whit (Coburn) e Sam Boone (Roberts) que buscam redenção, mas também querem botar as mãos no prisioneiro de Brigade pela recompensa, e uma viúva (Karen Steele), cujo marido acabou de ser morto pelos apaches – e seguem um caminho de perigos e aventuras, enfrentando o deserto e ataques dos peles-vermelhas.

James Coburn

Karen Steele

Simples e eficiente, mas bem básico. No entanto, à medida em que a história avança, a situação do grupo vai se tornando cada vez mais intrigante, especialmente por saber que bandidos liderado por Frank (Lee Van Cleef) – o irmão de Billy John – está no rastro do grupo, e as atitudes de Brigade revelam, na verdade, uma dramática história de vingança, cujos contornos trágicos curiosamente perpassa todo o filme.

Apesar da trama básica e rápida (o filme não chega a 80 minutos), o roteiro foi escrito por Burt Kennedy, outro talento e habitual colaborador de Boetticher e que escreveu vários dos melhores filmes da série (e depois se tornaria um ótimo diretor do gênero), por isso não é surpresa que o filme esteja cheio de diálogos memoráveis e personagens bem desenhados. O visual, como já disse, é outro destaque, um espetáculo que enche os olhos durante toda a projeção. Mas o que realmente define O HOMEM QUE LUTA SÓ como um dos melhores “bangue-bangue” dos anos 50 e o coloca acima de qualquer outro exemplar Scott/Boetticher, na minha opinião, são os últimos dez minutos, quando tudo se desenlaça ao redor de uma específica e solitária árvore, que representa um turbilhão de coisas para o embate entre Brigade e Frank.

Boetticher constrói habilmente a cena, temos as tensões que conduzem ao inevitável confronto, temos um domínio de espaço impressionante e temos personagens enquadrados nos arredores dos galhos torcidos da tal árvore. Mas Boetticher é um filho da puta que quebra com todas as expectativas do público: tanto no confronto entre Brigade com o temido Frank, que acaba acontecendo no modo “piscou, perdeu“, rápida, econômica e anti-clímax, quanto no possível duelo entre o personagem de Roberts e Brigade, que não acontece.

Mas é aqui que a poesia de O HOMEM QUE LUTA SÓ chega no ápice. Em vez de entregar o tiroteio épico e violento que Boetticher parecia nos preparar desde os primeiros minutos de filme, ele resolve fazer o final definitivo sobre as figuras humanas que povoam seu filme, sobre suas dores, desejos e planos ambíguos para o futuro. As emoções complexas atravessam as cenas finais como a fumaça negra da árvore em chamas, sinalizando o fim de um círculo de violência e a possibilidade de caminhos mais esperançosos. O plano final é icônico, a árvore, o fogo, a fumaça, o herói solitário… Brigade finalmente exorciza seus demônios depois de muitos anos e agora pode seguir em frente.

O HOMEM QUE LUTA SÓ foi lançado em DVD no Brasil pela Studio Classic Filmes.

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Um comentário sobre “O HOMEM QUE LUTA SÓ (Ride Lonesome, 1959)

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