EDDIE PRESLEY (1992, EUA)

Existe algo bonito em grande parte das pessoas com quem cruzo dia após dia, nas ruas de Recife. Noto em seus rostos, em seus olhares, que elas lutam pelos seus sonhos com uma vontade imensa de vivê-los. Eddie Presley, personagem escrito e interpretado por Duane Whitaker, bem que poderia ser uma delas.

EDDIE PRESLEY, dirigido por Jeff Burr, acompanha o personagem-título por alguns dias em Los Angeles, um homem cujo amor pelo Rei não tem limites. Tanto que mudou legalmente seu último nome para Presley quando decidiu cair na estrada homenageando o Rei através de seu tributo… mas isso se deu há muitos anos atrás. Podemos dizer que as coisas não tem dado muito certo para ele logo nos primeiros minutos da produção, quando o vemos morando numa van. Também passamos a saber que sua única fonte de renda é um emprego como vigia noturno de um depósito. Trabalho esse ameaçado por um supervisor dos mais malas já retratados no cinema e ajuda muito termos ninguém menos que Lawrence Tierney no papel.

A esperança ressurge para Eddie quando Doc (Roscoe Lee Browne), proprietário de um clubinho decadente, resolve dar uma chance para Eddie Presley. Com a ajuda de amigos do trabalho, ele fará de tudo para a noite de sua apresentação ser, também, o seu tão sonhado retorno, a perfomance de sua vida. Mas até mesmo nessa ocasião especial, feridas do passado – vistas em rápidos flashbacks em preto e branco no decorrer da narrativa – aliadas à inesperados problemas durante o próprio evento, farão Eddie contar apenas com ele mesmo e se abrir como nunca para seu (pequeno) público.

EDDIE PRESLEY é o papel da vida de Duane Whitaker, que também escreveu o roteiro, baseado em um monólogo de sua autoria. A peça conta com elementos autobiográficos e foi escrita numa das fases mais difíceis na carreira do ator, quando ele só arranjava papéis minúsculos em filmes e séries de TV e para sobreviver, também passou a trabalhar como vigia. Foi durante uma das apresentações do espetáculo que ele e os irmãos Jeff e William Burr (que produziu DO SUSSURRO AO GRITO) decidiram fazer o filme, reunindo vários amigos e conhecidos para tocar o projeto junto com eles. Jeff vinha de uma experiência negativa com LEATHERFACE: O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 3 e estava ansioso para fazer um filme independente de verdade, com sua assinatura no corte final.

A reunião de figuras queridas ligadas ao cinema de gênero e independente norte-americano chama a atenção. Na parte técnica, destacam-se a efetiva trilha de Jim Manzie, a edição classuda de Jay Woelfel e a sintonia entre o diretor de fotografia Tom Callaway e Jeff Burr. A sensibilidade da dupla consegue captar imagens memoráveis em um filme pequeno, de poucas locações. O elenco conta também com um impecável Clu Gulager, como Sid, um agente de quinta categoria, a quem Eddie convida para ver sua apresentação. Ted Raimi e Willard E. Pugh fazem os dois amigos do trabalho que apoiam o incansável lutador. As ótimas Harri James e Stacie Bourgeois interpretam as duas mulheres na vida de Eddie.

Em papéis menores, Daniel Roebuck, Tim Thomerson e Patrick ‘Puppy’ Thomas interpretam respectivamente o pior mágico, o pior cômico e o pior ventríloquo já retratados no cinema. Os três estão deliciosamente hilários em suas participações, com Roebuck tendo mais tempo para seu Keystone, o Magnífico. Como se não bastasse, temos ainda as aparições relâmpago de Bruce Campbell e Quentin Tarantino como funcionários de um hospital psiquiátrico, Joe Estevez atua como o pai de Eddie Presley e John Lazar (o eterno Z-Man de DE VOLTA AO VALE DAS BONECAS) interpreta um motorista de limusine que leva Eddie e amigos ao clube de Doc. É ‘piscou, perdeu’ mesmo, questão de segundos.

O show, claro, vem de Duane Whitaker, que se entrega de corpo e alma no seu único papel como protagonista. Seu desempenho faz com que Eddie não seja visto com um olhar cínico ou alguém digno de pena. Tal postura é a mesma da produção, que embora seja um drama e tenha cenas de partir o coração, faz questão de evitar qualquer traço de sentimentalismo barato. Existem críticas que dizem faltar algo, de não haver uma conclusão satisfatória, mas parte de sua força está justamente na coragem de não deixar um ponto final na trajetória deste belíssimo personagem. É através do sonhador e incompreendido Eddie que Whitaker nos fala sobre o preço, muitas vezes alto, que podemos pagar para a realização dos nossos sonhos.

Até meados de 2004, o filme se encontrava inédito no mercado doméstico. A redescoberta desta pérola se deu por conta de seu lançamento em DVD pela Tempe Vídeo, do realizador J. R. Bookwalter (THE DEAD NEXT DOOR, OZONE). Temos um excelente comentário de áudio que reúne Burr, Whitaker, Callaway, Woelfel e Manzie, que é informativo e divertido na mesma proporção. Dentre as várias informações, sabemos que as participações de Tierney e Tarantino se deram ao fato que EDDIE PRESLEY estava sendo filmado ao mesmo tempo que CÃES DE ALUGUEL. Há também 33 minutos de bastidores comentados pelos realizadores, uma prévia de COMBATE NA ESCURIDÃO, trailers e uma versão estendida do filme com 126 minutos de duração. E esse é apenas o disco simples. No segundo disco que compõe a edição especial, mais imagens de bastidores (incluindo Campbell e Tarantino ensaiando falas cortadas na edição final), entrevistas, um especial chamado “Tierney’s Tyranny” e outros extras.

Texto dos arquivos do blog republicado com algumas melhorias em celebração ao aniversário de Jeff Burr no dia de hoje.

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