ENTARDECER SANGRENTO (Decision at Sundown, 1957)

ENTARDECER SANGRENTO é o terceiro filme da colaboração entre Randolph Scott e Budd Boetticher, que rendeu 7 westerns produzidos entre SETE HOMENS SEM DESTINO (Seven Men From Now, 1956) e CAVALGADA TRÁGICA (Comanche Station, 1960). Um erro comum e cometido com frequência é colocar todos esses filmes como parte do ‘Ciclo Ranown’. SETE HOMENS… e UM HOMEM DE CORAGEM (Westbound, 1959) não tiveram a produção assinada por Harry Joe Brown. A Ranown foi uma associação entre astro e produtor (Randolph + Brown = Ranown) já existente antes de Boetticher entrar em cena e fechar toda essa história com chave de ouro.

Mas vamos seguir em frente e falar sobre o filme em questão. O fato é que ENTARDECER SANGRENTO sempre me fascinou. Talvez seja por ter sido um dos primeiros que vi dessa ilustre parceria entre ator-diretor mas gosto de pensar que esse não deve ser o caso. Bastou uma revisão após tantos anos para me certificar que sim, o longa tem o seu mérito. As suas grandes qualidades saltam aos olhos de quem espera um pouco mais do que um faroeste rápido e rasteiro como os que Scott era especializado em fazer ao longo de sua grande carreira. A duração aqui também é curta (apenas 77 minutos) mas esse filme consegue se desvencilhar completamente dos demais que assisti desse ciclo Boetticher-Scott e obviamente, de muito do que se fazia no gênero nesse período.

Sim, estamos falando de um faroeste mais psicológico que investe mais nos personagens, seus sentimentos e motivações do que em tiroteios, perseguições e duelos a cada 20 minutos ou menos. Não estou reclamando porque, afinal, eu também adoro esses pequenos filmes dotados de uma simplicidade e inocência que jamais será replicada nos dias atuais. Nenhum figurante de um faroeste moderno leva a mão ao peito ou ao braço para simular que levou um tiro.

Bart Alisson é um completo anti-herói, um personagem atípico para Randolph Scott que sempre fez o pistoleiro bom moço. Em SETE HOMENS E UM DESTINO e O RESGATE DO BANDOLEIRO, o astro viveu um honrado viúvo à caça dos responsáveis pela morte de sua esposa e um caubói que se viu obrigado a entrar em um jogo de vida ou morte para sobreviver a um sequestro. Geralmente, os filmes desse ciclo começam com esse ator na pele de um homem solitário cavalgando enquanto o espectador assiste aos créditos.

Não apenas os créditos de ENTARDECER SANGRENTO diferem dos demais como também a primera aparição de Scott como Alisson, onde o vemos com barba a fazer e como o passageiro de uma diligência que, de revólver em punho, ordena ao cocheiro para que ele a pare. Em menos de 2 minutos, vemos outra coisa que separa esta produção dos 5 filmes do ciclo Brown-Scott-Boetticher: o nosso protagonista tem um amigo ao seu lado, Sam (o sempre ótimo Noah Beery Jr.). Os dois se dirigem rumo a Sundown onde Sam localizou Tate Kimbrough (John Carroll), a quem Allison persegue há três anos. Coincidentemente, a dupla chega no mesmo dia em que Kimbrough irá se casar com Lucy Summerton (Karen Steele), ‘boa moça’ e filha de um ricaço (John Litel), para desagrado da amante Ruby (Valerie French, que aproveita cada minuto de sua participação).

Alisson e Sam reparam que Kimbrough e seus homens mandam e desmandam na pequena cidade de Sundown e na sua população amedrontada, com exceção de poucos como o Dr. John Storrow (John Archer). Allison pretende se vingar e desmoralizar Kimbrough diante de todos os moradores de Sundown devido a um incidente ocorrido no passado dos dois. Daí temos o título original: “Decisão em Sundown”.

Toda a trama acontece no curso de um dia e os personagens de Scott e Beery Jr. passam a maior parte de sua participação no filme encurralados pelos homens de Kimbrough em um estábulo. ENTARDECER SANGRENTO deve ter sido o mais barato de todos esses 5 westerns já que ele é inteiramente ambientado nessa pequena cidade cenográfica com poucas locações. O elenco está repleto de ‘character actors’  – aqueles que você pode não saber o nome mas já viu umas trocentas vezes – dando o seu melhor em papéis típicos de um filme do gênero. Vaughn Taylor (o chefe de Marion Crane em PSICOSE) brilha como o barbeiro alcoólatra.

Mas a beleza de ENTARDECER SANGRENTO está nos detalhes. O roteiro de Charles Lang Jr. lida com uma variedade de temas adultos e complexos que são muito bem explorados por Boetticher e elenco. É de se espantar que um filme realizado para ser apenas mais um faroeste ‘B’ nos diga tanto sobre a fragilidade e o orgulho masculinos. E não é exagero dizer que Scott está soberbo e tem aqui um dos melhores momentos de sua extensa carreira na pele de um personagem que é gradativamente descontruído no desenrolar da história. A memorável conclusão da vingança de Allison deve ser o motivo pelo qual muitos fãs conservadores do gênero torcem o nariz para o filme mas é nesse belíssimo final que reside muito da força de mais outro excelente trabalho de Budd Boetticher. ENTARDECER SANGRENTO é um título do vasto catálogo de faroestes da Classicline, que também lançou O RESGATE DO BANDOLEIRO e CAVALGADA TRÁGICA recentemente em DVD. A qualidade da cópia está excelente e o filme é apresentado em widescreen com opção de som original e a ‘dublagem clássica’ remasterizada para essa edição que pode ser encontrada nas melhores lojas físicas e virtuais. Quem sabe um dia ela não venha a lançar UM HOMEM DE CORAGEM, o único título inédito em home video desta famosa parceria entre ator e diretor, e trazer SETE HOMENS SEM DESTINO e FIBRA DE HERÓI de volta ao nosso mercado? Fiquemos na torcida.

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2 comentários sobre “ENTARDECER SANGRENTO (Decision at Sundown, 1957)

  1. Pingback: O RESGATE DO BANDOLEIRO (The Tall T, 1957) |

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