DVD: “Legião Negra” (Black Legion, 1937)

Diferente dos demais estúdios no período, a Warner Brothers da década de 30 se especializou em filmes com histórias extraídas das manchetes dos jornais e folhetins. Foi da Warner que vieram 2 filmes realizados antes da chegada do código Hayes que deram um ponta pé inicial ao que hoje conhecemos como o ‘filme de gângster’ como “Alma no Lodo” de Mervyn LeRoy e “Inimigo Público” de William A. Wellman, estrelados respectivamente por Edward G. Robinson e James Cagney nos papéis que os transformaram em astros da noite para o dia.

LEGIÃO NEGRA, lançamento da distribuidora Classicline, reúne Humphrey Bogart novamente a Archie L. Mayo, que o dirigiu 1 ano antes na adaptação cinematográfica de sucesso da peça “A Floresta Petrificada”. O ator tem aqui o seu 1o. papel como protagonista de sua carreira.

No filme, Bogart interpreta Frank Taylor, um homem simples e trabalhador que apenas tem olhos para o bem estar de sua mulher Ruth (Erin O’Brien-Moore) e o filho Buddy (Dickie Jones). E é por esse motivo que ele fica ansioso para conseguir uma vaga de supervisão que foi aberta na fábrica onde trabalha como operário. Se nos dias de hoje uma promoção garante uma melhoria nas condições financeiras e de vida das pessoas, imaginemos o que isso significava em pleno período de depressão nos Estados Unidos do final dos anos 30.

O porém é que essa promoção fica com um estudioso e esforçado colega de Frank, Joe Dombrowski (o alemão Henry Brandon, que viria a ser o vilanesco índio Scar de “Rastros de Ódio”). O segundo porém vem do fato de Joe ser um imigrante polonês. Amargurado, Frank tem o ódio e o seu preconceito por imigrantes alimentados pelos membros de uma organização secreta chamada Legião Negra da qual ele terminará fazendo parte. Como esperado de um filme com elementos que o fazem ser considerado um ‘pré-noir’, a decisão de Frank trará consequências trágicas para ele e quase todos os personagens que o cercam.
Livremente inspirado em fatos reais, o drama social LEGIÃO NEGRA foi realizado e lançado pela Warner como um legítimo filme ‘B’ para a sessão dupla com um filme classe ‘A’. O que não quer dizer que esse trabalho de Archie L. Mayo deva ser visto como mero entretenimento rápido. Os 83 minutos da produção são muito bem aproveitados em um longa conciso, objetivo, com cenas memoráveis e atuações acima da média esperada para um filme deste período graças a um ótimo elenco onde Mayo reaproveitou – além de Bogart – vários dos atores que participaram de “A Floresta Petrificada”.


E já que falamos em Bogart, é muito bom vê-lo fora da persona ‘tough guy’ compondo um homem tão vulnerável e facilmente manipulado por pessoas com interesses escusos. O ator tem um desempenho soberbo em um papel difícil, que poderia ser facilmente estragado pelo trabalho caricato de um ator e diretor de menor sensibilidade com o mesmo roteiro em mãos. Bogart e Mayo enxergaram humanidade em Frank e é provável que o espectador também a enxergue, apesar dos repetidos erros cometidos pelo personagem. É uma pena que Bogart teria de passar mais 5 anos fazendo papéis coadjuvantes e pequenas participações até ser finalmente reconhecido pelo grande público em “Seu Último Refúgio” (High Sierra), de Raoul Walsh.
Conforme não poderia deixar de ser, temos uma conclusão visivelmente afetada pelo Código com um longo sermão moralista de um juiz em uma sequência de tribunal. Mas ela não retira o impacto que LEGIÃO NEGRA ainda possui hoje, passados mais de 81 anos do seu lançamento. Prova disso é a cena do 1o. encontro da Legião Negra ao qual Frank vai em companhia do seu recrutador (Joe Sawyer). Chega a impressionar o quanto aquele discurso carregado de ignorância e preconceito contra pessoas de diferentes crenças e origens se assemelhe ao de uma extrema direita fascista que infelizmente tem ganho mais poder e mais adeptos ao redor do mundo.


Outra cena importante do filme foi dirigida por Michael Curtiz (“Casablanca”) após o final da filmagem principal sem receber créditos. Ela surge no meio da narrativa e revela os verdadeiros responsáveis por trás da Legião Negra, três executivos vestidos elegantemente que conversam sorrindo sobre as mensalidades e a venda das vestimentas e armas de fogo para os associados da organização. São poderosos homens de negócio lucrando dos medos e preconceitos de pessoas pobres e sem educação. LEGIÃO NEGRA é um filme muito corajoso e a frente do seu tempo em sua denúncia de uma triste realidade que continua a fazer parte de nossas vidas.

O surpreendente longa de Archie Mayo é lançado pela 1a.vez em DVD no Brasil pela Classicline em um belo trabalho de resgate dessa obra digna de mais reconhecimento. O disco oferece o filme em uma ótima cópia restaurada com legendas em português e espanhol e áudio original. A legenda possui alguns erros menores e banais de tradução que seriam resolvidos com uma revisão mais atenta. De extras, galeria de fotos com stills e material de propaganda e o trailer de cinema (sem legendas).

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Todas as imagens do filme na resenha foram capturadas a partir dessa edição em DVD que pode ser adquirida nas melhores lojas
ou clicando aqui para ser redirecionado ao site da Livraria Cultura.

Também da Classicline recomendamos o digistak “Cinema em Dobro – Máfia” com os sensacionais
“Alma no Lodo” e “Inimigo Público”, ambos mencionados no início do texto! 😉

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Um comentário sobre “DVD: “Legião Negra” (Black Legion, 1937)

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